Zona Azul em Itapevi irrita motoristas e vira alvo de críticas por cobrança rápida e falta de tecnologia

Moradores reclamam que a cidade passou a ter cobrança em vários pontos, muitos motoristas não conseguem nem entender o aplicativo antes de receber a notificação de regularização

Por Redação
6 de maio de 2026, às 7h16

A Zona Azul voltou a provocar reclamações entre moradores e motoristas que circulam por Itapevi. Nos últimos anos, a população viu o sistema de estacionamento rotativo pago se espalhar por diferentes pontos da cidade, com placas de identificação, indicação de aplicativo e presença constante dos agentes uniformizados, conhecidos popularmente como “amarelinhos”. Para parte dos motoristas, o problema não está apenas na existência da cobrança, mas na forma como ela vem sendo feita.

A queixa mais comum envolve a velocidade da abordagem. Moradores relatam que, em muitos casos, o condutor estaciona, tenta entender a placa, procura qual aplicativo deve baixar, verifica a forma de pagamento e, antes de concluir o procedimento, já encontra uma notificação no para-brisa. Na prática, o motorista recebe uma espécie de “multa provisória”, como muitos chamam, e passa a ter que pagar R$ 30 para evitar que a irregularidade avance para uma autuação de trânsito.

Pelas regras divulgadas pela empresa Fácil Estacionar para Itapevi, o estacionamento rotativo da cidade funciona com aplicativo, site, monitores identificados e pontos de venda. A própria página do serviço informa que a Zona Azul de Itapevi tem cerca de 1.200 vagas, tarifa de R$ 3 por 60 minutos para automóveis, tempo máximo de permanência de duas horas e funcionamento de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h, e aos sábados, das 8h às 14h. O mesmo material informa que a regularização da notificação tem prazo de 24 horas e custo de R$ 30.

O valor de R$ 30 também consta em publicação do Diário Oficial do Município de Itapevi, em decreto de julho de 2023, que fixou a tabela de tarifas do sistema de estacionamento, incluindo a “Regularização do ACT” nesse valor. A tarifa de 60 minutos para automóveis aparece em R$ 3 e a de 120 minutos em R$ 6.

Apesar da previsão formal do serviço, moradores afirmam que o modelo causa transtornos no dia a dia. As placas indicam a existência da Zona Azul e orientam o uso do aplicativo, mas muitos motoristas, principalmente pessoas de outras cidades, não conhecem o sistema local, não sabem qual aplicativo usar e acabam surpreendidos pela cobrança. Para quem chega de Jandira, Barueri, Osasco, Cotia ou de outra região, a dificuldade costuma ser maior, já que cada cidade pode trabalhar com um sistema diferente, horários próprios e regras específicas.

Algumas pessoas ouvidas pela reportagem preferiram não se identificar. Uma delas afirmou que entende a lógica do estacionamento rotativo, principalmente em áreas de comércio, mas considera o sistema atual agressivo. “Eu até acho que a Zona Azul pode ajudar quando existe muita disputa por vaga. O problema é que aqui a pessoa para o carro e já sente que está sendo vigiada. Não dá tempo de baixar aplicativo, fazer cadastro e pagar com calma”, disse.

Outra reclamação recorrente envolve a cobrança em locais que, segundo moradores, nem sempre têm grande circulação de pessoas. Motoristas afirmam que Itapevi ainda tem características de cidade de bairro em muitos trechos, com ruas vazias em determinados horários, pouco fluxo de comércio e baixa rotatividade real. Mesmo assim, a cobrança é feita. Para esses moradores, o modelo deveria ser aplicado com mais critério, priorizando ruas de grande demanda, entorno de bancos, comércio intenso, repartições públicas e áreas onde a permanência prolongada realmente prejudica o acesso às vagas.

A sensação de insegurança também aparece entre as principais críticas. Moradores relatam que a cidade tem pontos com presença frequente de pessoas em situação de vulnerabilidade social e dependência química, além de abordagens insistentes a motoristas logo após o estacionamento. Alguns afirmam que pagam para deixar o carro na via pública, mas o veículo continua exposto a furtos, danos, assaltos e outras ocorrências. A avaliação desses motoristas é dura: a cobrança chega rápido, mas não há qualquer garantia de proteção ao patrimônio.

Um comerciante da região central, que também pediu para não ter o nome divulgado, disse que muitos clientes já reclamaram da Zona Azul. Segundo ele, algumas pessoas deixam de parar em frente ao comércio por medo de voltar e encontrar uma notificação. “Tem cliente que fala que prefere pagar estacionamento fechado, mesmo sendo mais caro, porque pelo menos sabe quanto vai gastar e não fica com medo de tomar cobrança surpresa”, afirmou.

A moradora Bárbara D., da Cohab 2, relatou uma situação que resume a irritação de parte da população. Ela contou que parou por volta das 18h30 em um ponto sinalizado, percebeu que havia cobrança de Zona Azul e tentou regularizar pelo aplicativo. Segundo ela, em menos de três minutos, um agente já havia emitido a notificação do veículo.

“Eu parei, vi a placa, fui tentar baixar o aplicativo e resolver. Quando percebi, já tinha papel no carro. Não deu tempo de entender nada. A pessoa se sente punida antes de conseguir pagar”, disse Bárbara, bastante indignada.

O papel recebido por motoristas informa a possibilidade de regularização via Pix no valor de R$ 30. A notificação também menciona o artigo 181, inciso XVII, do Código de Trânsito Brasileiro, que trata do estacionamento em desacordo com as condições regulamentadas pela sinalização. No Manual Brasileiro de Fiscalização de Trânsito, esse enquadramento aparece como infração grave, com multa, possibilidade de remoção do veículo, cinco pontos no prontuário e constatação possível sem abordagem.

O Código de Trânsito Brasileiro dá aos municípios a competência para implantar, manter e operar sistemas de estacionamento rotativo pago nas vias públicas. Também cabe ao órgão municipal de trânsito fiscalizar, autuar e aplicar penalidades em infrações de sua competência. Ou seja, a Zona Azul depende de regulamentação e operação municipal, com base nas regras nacionais de trânsito.

Esse ponto jurídico, porém, não encerra a discussão. Para os moradores, o fato de a cobrança ter base legal não significa que o serviço esteja funcionando de forma justa, clara e eficiente. A crítica central está no modo de execução: falta de tolerância adequada, pouca orientação no local, dependência de aplicativo, dificuldade para quem não tem internet no celular e excesso de abordagem em curto intervalo de tempo.

José Manuel, morador do bairro Portela, contou que passou por uma situação incômoda na região central. Segundo ele, uma das lanternas de seu carro havia soltado e ele parou rapidamente para verificar o problema. “Eu nem cheguei a sair do carro. Nem desliguei o veículo. Já tinha uma pessoa me cobrando como se fosse pedágio. Expliquei que seria rápido, mas ela disse que emitiria o papel se eu não pagasse. Isso irrita qualquer um”, afirmou.

Outros moradores relataram problemas parecidos. Há quem reclame de parar por poucos minutos para buscar remédio, deixar um idoso, retirar uma criança, comprar algo rápido ou resolver uma emergência simples. Também há queixas de motoristas que alegam não ter conseguido completar o cadastro no aplicativo por falha de internet, falta de cartão cadastrado ou dificuldade com o sistema. Em todos esses casos, a cobrança de R$ 30 é vista como desproporcional quando comparada ao valor normal da tarifa.

Motoristas de outras cidades aparecem entre os mais prejudicados. Sem conhecer o funcionamento da Zona Azul local, muitos dizem que só percebem a cobrança depois de estacionar. Alguns acreditam que podem pagar diretamente a um agente; outros procuram parquímetro, não encontram, tentam entender a placa e acabam surpreendidos. A presença dos “amarelinhos” ajuda na identificação do serviço, mas também gera sensação de pressão quando a abordagem ocorre logo após o veículo parar.

Parte dos moradores defende que Itapevi adote um sistema mais moderno, com leitura automática de placas, fiscalização por veículo equipado com câmeras, aviso digital, prazo real de tolerância e aplicativo mais simples. Em cidades com operação mais tecnológica, segundo motoristas, o condutor costuma ter tempo para estacionar, acessar o aplicativo, inserir a placa e pagar antes de receber uma notificação. Em Itapevi, a percepção relatada por muitos é outra: primeiro vem a pressão, depois a explicação.

Também há pedidos por placas mais claras, informação visível sobre aplicativo, valores, horários, prazo de regularização e canal de contestação. Para idosos, pessoas sem familiaridade com tecnologia e motoristas que não usam aplicativos de pagamento, a cobrança digital pode virar um obstáculo. Quando o sistema depende de cadastro, internet, celular carregado e compreensão rápida das regras, o risco de punição aumenta para quem tem menos acesso ou menor habilidade com esse tipo de ferramenta.

A discussão sobre a Zona Azul em Itapevi não se limita à cobrança. Ela envolve mobilidade, uso do espaço público, segurança, transparência, tecnologia e bom senso na fiscalização. O estacionamento rotativo pode ajudar a organizar áreas de grande movimento e impedir que poucas pessoas ocupem vagas por horas. Mas, quando a população passa a enxergar o sistema como armadilha, a finalidade pública perde força e a cobrança vira motivo de revolta.

Moradores cobram que a Prefeitura de Itapevi e a empresa responsável pelo serviço expliquem os critérios de expansão da Zona Azul, o tempo médio de tolerância antes da emissão das notificações, a atuação dos agentes nas ruas e os canais disponíveis para contestação. Também pedem que a fiscalização seja educativa, principalmente para quem demonstra tentativa de pagamento ou desconhecimento do sistema.

A Prefeitura de Itapevi e a empresa responsável pela operação da Zona Azul têm espaço aberto para se manifestar sobre as reclamações dos moradores, a cobrança de regularização, a atuação dos agentes, o uso de tecnologia e eventuais melhorias no sistema.

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