Relatos apontam meses de ameaças, som alto e agressões; após vídeo mostrar fezes e urina sendo lançadas em uma casa, vizinhos cobram uma resposta urgente da Prefeitura
O pedido inicial parecia simples: baixar o volume do som para que os moradores pudessem trabalhar, descansar e cuidar de suas famílias. Meses depois, vizinhos da Chácara Santa Cecília, em Itapevi, afirmam que o bairro mergulhou em uma rotina de medo, ameaças e sensação de completo abandono pelo poder público.
O desespero dos moradores chegou à Gazeta de Itapevi por meio de vídeos, mensagens e do depoimento em áudio de uma das pessoas que vivem na região. Segundo ela, as reclamações começaram no início deste ano, diante de episódios frequentes de som alto durante o dia e a noite.

“Desde o começo do ano, estamos pedindo pacificamente para que ela pudesse baixar o som, porque a gente não consegue descansar”, relatou a moradora.
De acordo com o depoimento, a perturbação afeta trabalhadores que cumprem jornadas noturnas, pessoas que trabalham em casa e famílias com crianças que necessitam de cuidados especiais.
“Quem trabalha à noite não consegue descansar. Quem trabalha em home office, como eu, também não consegue realizar o trabalho. Há moradores que têm crianças especiais. A gente não tem um minuto de sossego, nem durante o dia, nem durante a noite”, afirmou.
O que começou como uma reclamação por perturbação do sossego teria se transformado, segundo os vizinhos, em uma sequência de provocações, ameaças e represálias.
Um dos episódios mais graves foi registrado por câmeras de segurança. As imagens mostram um balde contendo fezes e urina sendo lançado dentro da residência de uma vizinha. Segundo os moradores, o recipiente tinha mais de cinco litros de dejetos.
O vídeo foi encaminhado à reportagem e deverá servir como prova para que as vítimas busquem providências policiais e judiciais.
Para os moradores, o episódio representa o ponto mais degradante de uma situação que já vinha se agravando.
“Ela jogou fezes na casa de uma moradora, como mostra o vídeo. A gente não está tendo tranquilidade nem para sair de casa”, declarou a denunciante.
Além do caso registrado pelas câmeras, os moradores relatam ameaças com objetos cortantes, arremesso de vidros, danos a canos de residências, agressões verbais e intimidações nas ruas. Essas acusações ainda dependem de investigação e confirmação pelas autoridades responsáveis.
Segundo a moradora ouvida pela Gazeta de Itapevi, a comunidade passou a viver com portas e portões constantemente fechados.
Atividades simples, como ir ao mercado, levar os filhos à escola, sair para trabalhar ou estacionar um veículo em frente à residência, passaram a ser realizadas com medo.
“A gente precisa ir ao mercado, precisa levar o filho para a escola e precisa assumir nossos compromissos. Não temos mais essa tranquilidade. Ficamos sempre com os portões fechados e trancados”, afirmou.
A moradora diz que o clima de tensão também tomou conta das ruas. Segundo os relatos, pessoas ligadas à residência denunciada permanecem frequentemente na calçada e na via pública, provocando e intimidando vizinhos.
Os moradores afirmam que também existe uma atividade comercial irregular no imóvel, semelhante a um bar, com aglomeração, movimentação constante e som alto. A denúncia precisa ser verificada pela fiscalização municipal.
Também há um relato sobre uma possível ligação irregular de energia elétrica. A informação não foi confirmada pela concessionária e deve ser submetida à averiguação técnica.
Apesar da gravidade das reclamações e das imagens apresentadas, os moradores dizem que continuam sem uma resposta coordenada do poder público.
Uma das principais queixas envolve um aparente impasse entre a Guarda Civil Municipal e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o SAMU.
Segundo a denunciante, quando os moradores acionam a Guarda Municipal, recebem a orientação de procurar o SAMU, diante da possibilidade de existir uma questão relacionada à saúde mental. Ao ligar para o serviço médico, porém, os moradores afirmam que são orientados a procurar novamente a Guarda, pois os profissionais não poderiam entrar no local sem garantia de segurança.
“A gente liga para a Guarda e a Guarda fala para ligar no SAMU. A gente liga para o SAMU e o SAMU fala para ligar para a Guarda, porque eles não vão colocar a vida dos profissionais em risco”, declarou.
Na prática, segundo a comunidade, a responsabilidade é transferida de um órgão para outro enquanto nenhuma medida definitiva é adotada.
Os moradores afirmam que já procuraram representantes da Prefeitura de Itapevi e encaminharam mensagens diretamente ao prefeito Marcos Godoy, o Teco. Também teriam solicitado apoio de assessores da administração municipal.
Em uma das mensagens encaminhadas, a comunidade afirma estar “pedindo socorro” e alerta para o risco de uma tragédia.
“Não estamos pedindo um favor. Estamos pedindo que o poder público cumpra seu dever de proteger a população”, diz o texto enviado pelos moradores.
Segundo o depoimento, uma equipe ligada ao atendimento de saúde mental chegou a comparecer ao endereço, mas não conseguiu realizar o encaminhamento da moradora apontada nas reclamações.
A denunciante afirma que, depois dessa tentativa, nenhuma solução efetiva foi apresentada.
É importante destacar que qualquer diagnóstico relacionado à saúde mental deve ser realizado exclusivamente por profissionais qualificados. Os moradores não possuem competência para determinar a condição clínica de uma pessoa.
Ao mesmo tempo, episódios envolvendo ameaças, danos materiais, intimidação e risco à integridade física exigem atuação conjunta dos órgãos de segurança, saúde e assistência social.
Os moradores dizem não querer confronto. A principal reivindicação é que a Prefeitura de Itapevi coordene uma resposta capaz de proteger a vizinhança e também oferecer o atendimento adequado às pessoas envolvidas.
“Estamos vivendo sem proteção nenhuma. Não temos um minuto de sossego e paz”, resumiu a moradora.
O silêncio atribuído pelos moradores à administração municipal aumenta a sensação de abandono na Chácara Santa Cecília. Apesar das mensagens, dos pedidos de ajuda e dos registros em vídeo, a comunidade afirma que ainda não recebeu uma solução que permita retomar a rotina com segurança.
Até o fechamento desta reportagem, nenhuma resposta oficial da Prefeitura, da Guarda Civil Municipal, do SAMU ou dos demais órgãos citados havia sido apresentada à Gazeta de Itapevi.
A reportagem mantém espaço aberto para manifestação da moradora denunciada e dos órgãos públicos envolvidos.
As vítimas também devem preservar os arquivos originais das câmeras, registrar boletins de ocorrência e guardar números de protocolos, mensagens, fotografias e gravações. Esses materiais podem auxiliar na apuração dos fatos e na adoção de medidas de proteção.
O apelo dos moradores da Chácara Santa Cecília é para que as autoridades não esperem uma agressão grave ou uma tragédia para agir.
O bairro, segundo quem vive no local, chegou ao limite.

