Nem R$ 10,9 bilhões seguraram o governo: Lula sofre semana dura no Congresso

Liberação de emendas não impediu rejeição de Jorge Messias ao STF nem derrubada do veto da dosimetria, em sinal de perda de controle político do Planalto
or Redação
03/05/2026 às 01h35

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou uma das semanas mais difíceis de sua relação com o Congresso Nacional. Em dois dias, o Planalto sofreu duas derrotas de alto impacto: a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto presidencial ao projeto da dosimetria, que reduz penas ligadas aos atos de 8 de janeiro.

O tamanho do revés chamou ainda mais atenção porque ocorreu após uma forte liberação de emendas parlamentares. Levantamento publicado pelo Estadão aponta que o governo liberou R$ 10,9 bilhões em emendas desde 9 de abril, período em que a sabatina de Messias foi marcada e a análise do veto da dosimetria entrou no radar do Congresso. O valor representa 82% de tudo que havia sido autorizado desde o início do ano, de um total de R$ 13,3 bilhões.

Na prática, o Planalto tentou usar uma ferramenta tradicional de articulação política: acelerar recursos indicados por deputados e senadores para obras, serviços e projetos nos estados e municípios. Emendas parlamentares são verbas previstas no Orçamento da União que os congressistas indicam para determinadas áreas ou localidades.

A estratégia, porém, não foi suficiente para evitar a derrota. O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias por 42 votos contrários e 34 favoráveis. Para ser aprovado ao Supremo, o indicado precisava receber ao menos 41 votos favoráveis entre os 81 senadores. O resultado foi confirmado pelo próprio Senado e representou a primeira rejeição de uma indicação ao STF em mais de um século.

Messias era advogado-geral da União e aliado histórico de Lula. Ele havia sido indicado para a vaga aberta com a saída antecipada de Luís Roberto Barroso. A escolha enfrentou resistência desde o início, especialmente em setores do Senado que viam a indicação como uma decisão excessivamente política do presidente.

A derrota ganhou peso porque a votação foi secreta. Esse formato dificulta o controle do governo sobre sua própria base e aumenta o risco de traições. Mesmo parlamentares contemplados por recursos ou próximos ao Planalto poderiam votar contra sem exposição pública direta.

O revés de Messias foi seguido por outra derrota. No dia seguinte, o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto da dosimetria. De acordo com o Senado, foram 318 deputados e 49 senadores favoráveis à derrubada do veto. Com isso, o texto vetado pelo presidente passa a seguir para promulgação.

O projeto da dosimetria reduz penas de condenados por tentativa de golpe e atos relacionados ao 8 de janeiro. Para o governo, a manutenção do veto era importante por razões políticas e simbólicas. Para a oposição, a derrubada representou uma vitória contra o que seus parlamentares classificam como punições desproporcionais.

As duas votações expuseram um problema central para Lula: a liberação de recursos já não garante apoio automático no Congresso. Durante anos, emendas parlamentares foram usadas por diferentes governos como instrumento de aproximação com deputados e senadores. O mecanismo continua relevante, mas perdeu parte da capacidade de disciplina política.

Parte dessa mudança ocorre porque o Congresso passou a controlar uma fatia cada vez maior do Orçamento. Com o avanço das emendas impositivas e das emendas de comissão, parlamentares passaram a tratar esses recursos menos como concessão do governo e mais como direito político do Legislativo. Isso reduz o poder do Planalto de condicionar a liberação de verbas ao apoio em votações sensíveis.

Segundo o levantamento publicado pelo Estadão, apenas no Senado, foco direto da articulação para aprovar Messias, o Executivo empenhou R$ 2,4 bilhões desde que a sabatina foi agendada. Empenhar significa reservar o dinheiro no Orçamento para pagamento futuro, mas não necessariamente pagar imediatamente.

O mesmo levantamento aponta que o senador Weverton Rocha, relator da indicação de Messias na Comissão de Constituição e Justiça, foi o maior contemplado no Senado no período, com R$ 65,8 milhões em emendas. O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, aparece com R$ 36,1 milhões. Mesmo assim, Alcolumbre foi apontado nos bastidores como peça importante na derrota do governo.

Esse cenário mostra que o governo enfrenta uma dificuldade maior do que a simples contagem de votos. O problema está na perda de previsibilidade da base. Lula ainda consegue negociar, liberar recursos e construir acordos pontuais, mas não demonstra ter controle firme sobre o comportamento do Congresso em temas de alta tensão política.

A rejeição de Messias também atinge a autoridade presidencial. Indicações ao Supremo costumam ser tratadas como prerrogativa forte do chefe do Executivo. O Senado tem o papel constitucional de aprovar ou rejeitar, mas historicamente costuma validar os nomes enviados pelo presidente. Quando isso não acontece, o resultado passa a mensagem de que o Planalto não conseguiu medir corretamente a resistência interna.

No caso da dosimetria, a derrota indica outra fragilidade. O governo não conseguiu impedir que uma pauta defendida pela oposição avançasse em sessão do Congresso. A votação mostrou força de articulação dos adversários de Lula e impôs uma derrota em tema diretamente ligado à narrativa política sobre os atos de 8 de janeiro.

O impacto das duas votações deve influenciar os próximos passos do Planalto. O governo ainda precisa aprovar pautas econômicas, sociais e eleitorais em um Congresso fragmentado, com partidos de centro cobrando espaço e oposição mais organizada após as vitórias recentes.

A principal dúvida agora é se Lula conseguirá recompor a relação com o Senado ou se entrará no segundo semestre com uma base ainda mais instável. A escolha de um novo nome para o STF será o primeiro grande teste depois da derrota de Messias. O presidente precisará indicar alguém capaz de passar pela sabatina e pelo plenário sem repetir o desgaste político da semana.

O episódio também fortalece a oposição. Ao derrotar o governo em duas votações seguidas, parlamentares contrários ao Planalto passaram a defender novas ofensivas sobre temas como reforma do STF, limites ao Judiciário, anistia e revisão de decisões relacionadas ao 8 de janeiro.

Para Lula, o recado do Congresso foi claro: dinheiro ajuda na articulação, mas já não resolve sozinho. O Planalto terá de lidar com um Legislativo mais independente, mais caro politicamente e menos disposto a seguir automaticamente as prioridades do governo.

A semana terminou com uma conclusão dura para o Palácio do Planalto. Mesmo após uma liberação bilionária de emendas, Lula perdeu no Senado, perdeu no Congresso e viu sua articulação política ser colocada em xeque no momento em que precisava demonstrar força.

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