Sem ações permanentes e bem estruturadas de zeladoria, segurança e resgate social, cidade acumula relatos de roubos, abordagens intimidatórias e sensação de perda de controle nas ruas
por Redação — 7 de maio de 2026, às 02h32
Moradores de diferentes bairros de Itapevi relatam uma rotina marcada por medo, abordagens constantes nas ruas, assaltos, roubos de veículos, presença de usuários de drogas em pontos de circulação e falhas de zeladoria. A percepção de parte da população é que a cidade passou a enfrentar, nos últimos meses, uma combinação de problemas que aparece com intensidade maior do que em municípios vizinhos como Barueri, Jandira, Cotia e Osasco.
A comparação com outras cidades da região aparece com frequência nas falas de moradores ouvidos pelo Gazeta de Itapevi. Eles afirmam que Barueri, Jandira, Cotia e Osasco também têm problemas de segurança, como qualquer município da Grande São Paulo, mas dizem não encontrar nesses locais a mesma sensação de desordem urbana que hoje associam a Itapevi. A reclamação envolve a quantidade de pessoas pedindo dinheiro nas ruas, a presença de usuários de drogas em locais movimentados, a pouca visibilidade de policiamento e a deterioração de espaços públicos.
Os relatos partem de moradores de bairros como Amador Bueno, Suburbano, Cohab I, São Carlos e Portela. Em comum, eles descrevem uma cidade mais tensa, onde pedestres evitam usar o celular em público, comerciantes trabalham em alerta, entregadores reduzem o tempo de parada em determinados pontos e moradores passaram a mudar trajetos por medo de abordagem ou roubo.
Nesta semana, segundo relatos encaminhados à reportagem, um estabelecimento foi assaltado na região da Cohab. Também houve relato de roubo de veículo no mesmo bairro. Os casos aumentaram a preocupação entre moradores e comerciantes da região, que dizem sentir falta de presença policial mais constante, principalmente nos horários de maior circulação e à noite.
Para alguns entrevistados, a criminalidade pode parecer menor nos registros oficiais do que na realidade vivida nas ruas. O motivo, segundo eles, é que muitas vítimas de roubos de celulares não registram boletim de ocorrência. A pessoa perde o aparelho, fica no prejuízo e, em vários casos, desiste de procurar a delegacia por falta de tempo, descrença ou receio da burocracia.
Carlos Henrique Alves, morador da Cohab I, afirma que conhece pessoas que foram vítimas de roubo e não registraram ocorrência. “Levaram o celular de uma vizinha perto da Cohab. Ela ficou assustada, mas disse que não ia fazer boletim porque achava que não ia adiantar. Isso acontece bastante. A pessoa perde o celular, troca senha de banco, bloqueia tudo e tenta seguir a vida”, relatou.
Segundo Carlos, a rotina mudou para quem mora no bairro. “Hoje quase ninguém anda com o celular tranquilo na mão. A gente olha para os lados antes de atender uma ligação. Isso não é normal. A sensação é de que qualquer descuido vira oportunidade para alguém agir”, afirmou.
A moradora Marizete Ferreira, 64 anos, do Suburbano, relata que saiu da Estação de Itapevi em direção ao bairro e foi abordada cinco vezes em locais diferentes por pessoas pedindo dinheiro para “passagem”. Segundo ela, algumas abordagens foram educadas, mas outras causaram medo pela insistência e pela proximidade física.
“Tem pessoa que pede de forma tranquila. Mas tem outras que chegam muito perto, insistem, acompanham alguns passos. Você percebe que não é passagem. A gente fica sem saber se responde, se acelera o passo ou se atravessa a rua”, contou Marizete.
O relato dela se aproxima do que dizem outros moradores que circulam pela região central, pelo entorno da estação e por vias de passagem entre bairros. A justificativa mais comum ouvida por pedestres é a falta de dinheiro para completar a condução. Moradores, no entanto, afirmam que em muitos casos identificam sinais de uso de drogas e acreditam que o pedido de “passagem” se tornou uma abordagem repetida para conseguir dinheiro rápido.
Patrícia Cristina Santos, moradora do Portela, afirma que evita passar sozinha por alguns trechos. “Tem lugar que você já sabe que vai ser parada. Às vezes a pessoa só pede dinheiro e vai embora. Mas também tem quem fale alto, chegue perto, olhe para a bolsa. Para mulher é mais complicado, porque você não sabe se aquilo vai ficar só no pedido”, disse.
O entregador Leandro Aparecido Martins, morador do São Carlos, afirma que a insegurança interfere diretamente no trabalho de quem passa o dia nas ruas. Segundo ele, há pontos onde motociclistas evitam ficar parados por muito tempo. “Quem faz entrega sente rápido quando a cidade está pior. A gente trabalha com celular, mochila, maquininha e moto. Tudo chama atenção. Tem lugar que eu paro e já vem alguém pedir dinheiro, olhar a moto, puxar conversa. Você fica em alerta o tempo todo”, relatou.
Em Amador Bueno, a aposentada Rosângela Moreira da Silva diz que o problema não se limita à segurança. Para ela, a cidade também sofre com perda de cuidado urbano. “Tem rua com sujeira, mato, buraco, lugar escuro, gente dormindo em calçada e gente alterada andando pelo bairro. A impressão é que a cidade perdeu cuidado. Quando o lugar parece abandonado, a gente se sente menos seguro”, afirmou.
Moradores também citam piora na zeladoria após a saída do ex-prefeito Igor Soares, que encerrou o mandato em 2024. O atual prefeito, Marcos Godoy, o Teco, assumiu a administração em 2025 após ser eleito como sucessor de Igor. A Câmara Municipal registrou a diplomação de Marcos Ferreira Godoy, o Teco, e do vice-prefeito Thiaguinho Silva em dezembro de 2024.
A cobrança feita por moradores não se restringe a uma área da Prefeitura. As queixas envolvem segurança, assistência social, saúde mental, zeladoria e iluminação pública. Para entrevistados, a presença de usuários de drogas e pessoas em situação de rua não pode ser tratada apenas como caso de polícia, mas também não pode ficar sem resposta do poder público.
A cidade possui serviços municipais voltados à população em situação de rua, à vulnerabilidade social e ao atendimento em saúde mental. Em fevereiro de 2025, a Prefeitura divulgou o Programa Recomeçar, criado para intensificar o atendimento à população em situação de rua. Segundo a administração municipal, a iniciativa envolve assistentes sociais, agentes de saúde e equipes de segurança, além de complementar ações do Centro POP e do Programa Amparar.
A própria Prefeitura informou que, durante as abordagens, há cadastro das pessoas atendidas, avaliação por agentes de saúde e possibilidade de encaminhamento para atendimento psiquiátrico no pronto-socorro ou nos CAPS, quando houver necessidade. A administração também informou que a busca ativa do Recomeçar seria realizada duas vezes por semana, em dias alternados.
O Programa Amparar foi divulgado como serviço permanente de acolhimento noturno, ligado ao Centro POP e ao Centro de Acolhimento Noturno, na Vila Aurora. Segundo a Prefeitura, o Centro POP funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e o acolhimento noturno funciona todos os dias, das 19h às 7h.
Apesar da existência desses serviços, moradores afirmam que a resposta ainda não aparece nas ruas com intensidade suficiente. A avaliação de entrevistados é que pessoas em situação de vulnerabilidade continuam nos mesmos pontos, por longos períodos, abordando pedestres e dormindo em calçadas. Para eles, isso indica que o atendimento, mesmo existente, não tem produzido efeito visível na proporção esperada.
A preocupação com a segurança também ganhou força após casos de maior repercussão registrados em Itapevi. Em novembro de 2025, o entregador de pizza Bruno Leonardo Ribeiro Reis, de 30 anos, morreu durante um assalto enquanto realizava uma entrega na cidade. Segundo a CNN Brasil, dois homens em uma moto abordaram a vítima, fizeram disparos e fugiram levando a motocicleta. O caso foi registrado como latrocínio na Delegacia de Itapevi.
Em março de 2026, a Record noticiou o caso de um comerciante violentamente atacado e baleado durante um assalto em Itapevi. De acordo com a reportagem, a vítima saía da academia e caminhava em direção ao carro quando foi abordada por dois criminosos em uma motocicleta. O garupa desceu armado, exigiu que o comerciante ficasse de joelhos, roubou objetos e atirou antes da fuga.
No fim de abril de 2026, outro caso começou em Itapevi e terminou em Cotia. Segundo o Cotia e Cia, uma motocicleta foi roubada por dois criminosos no Jardim Paulista, em Itapevi. A Polícia Militar iniciou buscas, localizou um dos suspeitos na região da Granja Viana, e a ocorrência terminou com morte após intervenção policial. A motocicleta foi recuperada, e um simulacro de arma de fogo foi apreendido.
Em dezembro de 2025, o São Roque Notícias publicou o caso de uma motocicleta encontrada abandonada no estacionamento do Centro de Reabilitação, na Estrada do Sapiantã, em Itapevi. Segundo a publicação, a Guarda Civil Municipal recolheu o veículo após informação de que dois indivíduos teriam deixado a moto no local. A consulta não apontou queixa de roubo ou furto vinculada ao veículo naquele momento.
Para os moradores ouvidos, esses casos não representam todos os problemas da cidade, mas ajudam a explicar por que a sensação de insegurança se tornou mais presente. A soma de ocorrências graves, relatos de assaltos em bairros, abordagens diárias e falhas de zeladoria cria um ambiente de tensão permanente.
Renata Almeida Costa, 32 anos, moradora do Suburbano, afirma que percebe diferença quando circula por Barueri. “Problema existe em todo lugar, mas em Barueri você vê mais organização. Em Itapevi, a gente sai da estação e já fica em alerta. No caminho para casa, passa por gente pedindo dinheiro, gente alterada, lugar sujo, rua escura. A sensação é diferente”, relatou.
João Paulo Nascimento, morador de Amador Bueno, diz que costuma ir a Osasco e Cotia e não sente a mesma pressão nas ruas. “Osasco tem crime, Cotia também tem, ninguém está dizendo que não tem. Mas em Itapevi parece que está tudo junto no mesmo lugar: assalto, sujeira, pouca polícia, usuário de droga, bairro mal cuidado. É isso que assusta”, afirmou.
Outro ponto citado por moradores envolve a forma como ações de segurança são comunicadas nas redes sociais oficiais. Eles mencionam um vídeo publicado meses atrás pela Prefeitura em que um rapaz de bicicleta rouba o celular de uma munícipe, que consegue acionar uma equipe da Guarda Municipal. A viatura intercepta o suspeito e recupera o aparelho. A ação da GCM foi vista como positiva, mas moradores criticaram o tom considerado leve demais para uma ocorrência de roubo.
Para entrevistados, a divulgação de prisões, flagrantes e recuperação de bens pode ser feita, mas precisa preservar a seriedade da situação vivida pela vítima. A avaliação é que crimes contra munícipes não devem ser tratados como conteúdo de entretenimento, mesmo quando o desfecho termina com recuperação do bem.
A reportagem não teve acesso a dados oficiais atualizados que permitam afirmar se houve aumento real da criminalidade em todos os bairros citados. Os relatos, no entanto, apontam crescimento da percepção de insegurança entre moradores, comerciantes e trabalhadores que circulam diariamente por Itapevi.
A subnotificação também aparece como fator de preocupação. Quando vítimas deixam de registrar roubos de celulares, furtos e abordagens, parte da realidade vivida nas ruas pode não aparecer com clareza nos indicadores oficiais. Moradores afirmam que esse comportamento ocorre com frequência, principalmente em crimes considerados “menores”, mas que afetam diretamente a sensação de segurança.
Entre as medidas defendidas pelos entrevistados estão maior patrulhamento preventivo nos bairros, reforço da presença da Guarda Municipal em áreas de circulação, integração com a Polícia Militar, melhoria da iluminação, limpeza de pontos críticos, manutenção de calçadas e praças, além de acompanhamento mais efetivo de pessoas em situação de rua e usuários de drogas.
Moradores de Amador Bueno, Suburbano, Cohab I, São Carlos e Portela afirmam que a cidade precisa de respostas permanentes, e não apenas ações pontuais. A cobrança é por uma atuação integrada entre segurança pública, assistência social, saúde mental e zeladoria urbana.
O Gazeta de Itapevi mantém espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Itapevi, da Secretaria de Segurança e Mobilidade Urbana, da Guarda Civil Municipal e dos órgãos estaduais responsáveis pela segurança pública.
